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sábado, 18 de setembro de 2010

sempreAMIGOSempre

Imagens não dispensam palavras. Imagens completam os sentimentos das palavras. Os amigos acolhem nossas palavras dentro das imagens.


MAIS...





MAIS...
 

VIRÃO OUTROS MAIS...

SERES-MONUMENTOS

Entre as sete maravilhas do mundo antigo estão as Pirâmides do Egito. Entre as sete maravilhas do mundo moderno está o Taj Mahal na Índia. Pode haver alguma discordância a respeito das maravilhas que temos a mania de ir classificando pela vida afora. Na verdade a arte não precisa de classificação, mas apenas da nossa admiração. Claro que temos o direito de preferir isto ou aquilo, no entanto é provável que todos concordem que a verdadeira maravilha do mundo é a energia que o ser humano coloca nas suas ações quando cria, quando transforma e quando eterniza a sua passagem pelo mundo com as suas nobres e generosas atitudes.

Não importa muito, no momento, os motivos para a idealização e concretização dos dois grandes monumentos citados como exemplo. Por serem grandes são vistos e sabidos por qualquer pessoa que já tenha passado os olhos em algum livro, ou ouvido a história contada por alguém. E as ações humanas, às vezes tão pequeninas, mas de um valor inestimável e não prestamos atenção? Onde elas acontecem? Muitas vezes tão perto de nós...

Com a visão embaçada, por uma série de razões, não conseguimos ver os anjos que trabalham na nossa praia enquanto relaxamos a mente. Esses anjos zelam por nós praticamente de graça. Afinal para que anjo precisa de dinheiro? Não são grandes como as Pirâmides ou o Taj por isso mal são vistos. Enquanto as consideradas maravilhas do mundo são protegidas contra a ação do tempo, os nossos anjos mal têm protetor solar e equipamentos para ajudá-los a evitar que nós sejamos tragados pelo mar na nossa imprudência, na inocência das crianças e na desobediência dos adolescentes que, algumas vezes, ouvi debochar das orientações dos nossos salva-vidas.

Não sei o nome de todos os anjos da praia de Villas porque meu banho de mar e minhas observações ficam restritas entre as barracas da Gávea e Boteco do Caranguejo. Enquanto eles nos guardam, eu os atrapalho puxando conversa, mas seus olhos não se desviam do mar. Muitas vezes a conversa é interrompida e quando me dou conta suas asas já crescerem e num segundo estão dentro d’água cumprindo a missão amorosa que lhes foi destinada: a arte de salvar. A arte da preservação da vida de desconhecidos.

Com essa crônica quero homenagear os nossos anjos salva-vidas: Sandra – a quem apelidei de olhos de águia; Adailton – tigre veloz; Raimundo – peixe das pedras; Davi - homem peixe. A homenagem se estende aos outros salvadores, sementes que germinam por toda a praia e que todos os dias nos presenteiam com suas lições de solidariedade, bondade, paciência, cuidado e amor. Seres-Monumentos que nós precisamos preservar.



É SEMPRE TEMPO DE DIZER

É SEMPRE TEMPO DE DIZER...


Na primeira noite,
Eles se aproximam
E colhem uma flor
De nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
Já não se escondem:
Pisam as flores,
Matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada

No trecho do poema acima - NO CAMINHO COM MAIAKOWSKY (Eduardo Alves da Costa) – é possível abrir margem para interpretações e entendimentos diferentes porque pode dirigir o nosso olhar para onde queiramos. Embora seja sempre muito interessante discutir literatura, neste momento, no entanto, escolho desviar os meus olhos para uma questão que foi levantada, no site cafecomnoticias.com.br, (12/02/10), na crônica Seres-Monumentos, quando escrevi sobre a importância de prestarmos atenção aos nossos salva-vidas, os quais chamei de anjos.

Em verdade, apenas registrei os sentimentos da minha alma, sempre movida pelo Amor pela vida, pelos seres viventes e por esse universo que nos acolhe. O resultado do que escrevi foi positivo porque foi fruto também do olhar dos freqüentadores da praia de Villas (Lauro de Freitas)  e de jornalistas atentos. Não podemos esquecer que juntos somos uma força indestrutível porque nada tememos; porque não permitimos que pisem nossas flores nem matem nosso cão. Ninguém nunca nos roubará a lua nem arrancará a voz da nossa garganta porque não nos omitimos; porque sabemos dizer o que sai do coração e dizemos quando é necessário.

Solidariamente a nossa comunidade contribuiu com seus comentários de apoio ao que noticiamos e nos fizemos ouvir pela administração municipal: hoje, 12 de fevereiro, os salva-vidas receberam parte do equipamento de que precisam para trabalhar. Estavam felizes e empolgados! Nós que noticiamos, bem como os freqüentadores da praia, ficamos agradecidos por termos nossas reivindicações atendidas.

Binóculos, pés de patos, rádio comunicador, máscara para respiração artificial e colete cervical para as vítimas de afogamento com suspeita de trauma na coluna. (vide fotos). Porém ainda continuamos no aguardo do pranchão, novas bandeiras,  o indispensável kit de primeiros socorros e a continuação da construção dos outros mirantes necessários ao longo da praia. Agora confiamos que periodicamente virão também para os salva-vidas: colírios, protetor solar, óculos escuros e o ticket alimentação a fim de que almocem sem dependerem da generosidade dos donos das barracas e das baianas de acarajé.





 









Dizer com o coração traz boa sorte. É sempre tempo de dizer, portanto. Dizer para crescer e ajudar o outro a crescer, descobrir e desenvolver o que há de melhor em nós e nos outros. Essa é a lição do Amor, a única experiência verdadeiramente real e duradoura da vida. A essência dos relacionamentos, o oposto do medo, fonte da felicidade, energia que vive dentro de nós e nos une a todos os seres. Energia poderosa que nos faz dizer para que não nos arrependamos, um dia, de não termos dito nada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

DE NOVO

Mais um 31 que se avizinha
silencioso
sob o meu travesseiro.


Mais um 31 que pergunta
inquieto
sob o sol aniverseiro.


Mais um 31 que insiste
teimoso
em mais velas acender.


Mais um 31 que me grita
desvairado:
quando vai se acontecer?


31 de agosto de 2010
Neuzamaria Kerner

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MASCULINO MUDA SORTE

Não era tristeza, não era dor, não era doença. Era um sentimento incômodo, uma coisa que vinha de dentro que o deixava desanimado e, por várias vezes, mais do que desânimo, entrava quase que num estado de prostração por dias a fio. Era aquela vontade de nada: nem de morrer nem de viver, nem de dormir nem de acordar, nem de comer nem...  Pensava quando tinha disposição ou quando o pensamento criava vontade própria e se instalava, sem pedir licença, na mente desgovernada. No que pensava mesmo? Talvez na dureza da vida. Vida. Tão boa para uns, tão ingrata ou indiferente para outros. Era ruindade o que a vida estava fazendo a ele. Ruindade da pior. E a vergonha de pedir ajuda aos vizinhos ou aos parentes? "É um vagabundo preguiçoso que dorme o dia todo e nem sai do barraco para procurar o que fazer". Era isso que ouvia pelas frestas das tábuas. "Não sou vagabundo, só estou desafortunado. Deve ser culpa da crise de fora e de dentro. É o sistema". Pensava.

Vida é feminino. Pobreza é feminino. Alegria é feminino. Mulher é feminino. Por isso nunca se dera bem com o feminino até para amar. Gostar do masculino não era defeito. Disso tinha consciência, mas naquela situação nem amigo arranjava para desabafos ou desafogos. Dormiu pensando em um que tivera, mas o abandonara assim que a necessidade - também feminino - bateu à porta. Esse abandono doeu mais do que a pobreza em que estava vivendo desde que se entendia por gente.

Sonhousonhousonhounoiteinteira. Cachorro, cavalo, boi, jacaré habitaram seus sonhos. Lutou com todos, ficou todo lanhado e saiu vencedor. Acordou até cansado de tanta batalha - pelo menos os bichos eram machos. De repente o dia e o pensamento - ambos masculinos - trouxeram uma ideia: tabela dos animais do jogo de bicho. Trocados contados. Força criada, embora os tremores de uma barriga vazia. Foi à lotérica. Apostou. Ousou. Acrescentou o 24 na mega mesmo sabendo que, se não desse certo, estaria zerado provavelmente para sempre amém.

Bingo!!!

Como por encanto aquela coisa inexplicável que lhe sufocava a alma e as vontades desapareceu. Meio zonzo com a mudança da sorte, sem saber ainda para onde ir, voltou ao barraco e lá estava aboletado no colchão de capim que lhe servira de cama, o carinha. Aquele mesmo que na hora do deus-me-acuda sumira. Olhou no fundo dos olhos do deitado e ia abrindo a boca para dizer qualquer coisa... Não valia a pena. Virou as costas para aquele passado e saiu pela rua para ser acolhido pelo novo Dia, bem masculino e com D maiúsculo.

Olhar pra trás... jamais! -  pronunciou do jeito francês.

p.s. texto escrito em casa... sem ter absolutamente nada pra fazer.
p.s.2. e viva Mariá Pinkusfeld!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O DOIS DE JULHO É MEU PAI.

... E não pode ser de outra forma porque a minha referência é puramente sentimental. O livro de História da Bahia me ensinou uma coisa sobre o Dois de Julho que, em verdade, foi apenas a ponte que conduziu a celebração baiana para os meus átrios cardíacos. Nesses espaços meu pai sacralizou o meu Dois de Julho.



Bom, quem me sabe, sabe também como aprendi (oficialmente) a ler: meu pai pegava um jornal e ía me mostrando as letras grandes... Aprendi o ABC (a bê cê dê é fê guê agá i ji lê mê nê ó pê quê rê si tê u vê xis zê) direto e salteado e depois solenemente soletrei o meu nome: Nê É U -neu- Z A -za- M A -ma- R i -ri- A. Quem quiser saber como é isso é só pesquisar e ouvir o Galope à Beira Mar Soletrado (Xangai e Ivanildo Vilanova).

Ler e escrever o meu nome. O que há mais de meu, a minha alma. Foi a Glória!!!

Extra oficialmente eu já havia aprendido a ler as histórias e mentiras escabrosas e engraçadíssimas e assombrantes de meu pai. Só pra me gabar mais, por ele e com ele, eu conhecia as histórias de Sherazade de trás pra frente e de frente pra trás. Isso sem falar que aos 11 anos eu já era íntima do poeta da antiga Pérsia, atual Irã, Omar Khayyam (1048-1131), um dos primeiros da fila dos meus amantes.

Então, no Dois de Julho, meu pai levava a mim e minhas irmãs - Marise e Marinalva - para a Lapinha. Logo cedo mainha providenciava o nosso banho, o pentear dos cabelos. Na pele rescendia o cheiro de seiva de alfazema da phebo. Lá íamos, quase Marias Quitérias marchando cataventos verdes e amarelos e bandeirinhas azulvermelhobranco de Brotas até a Lapinha. Nesse trajeto histórias mil iam sendo contadas pelo cara mais sábio do mundo. Éramos educadas  para a vida dos iguais e diversos nessa caminhada. Por isso somos limpinhas.

Repentinamente o carro do Caboclo e da Cabocla se descortinava em penas deslumbrantes diante de nossos olhos arrebatados de cores. As marchas e dobrados tocados pelas bandas do Corpo de Bombeiros  e da Polícia Militar bumbavam no peito baiano. Os alunos das escolas disputavam a melhor posição com suas fanfarras e com as meninas mais bonitas, fazendo evoluções com suas balizas, sendo o destaque principal, a aluna, Semírames, do Colégio Ypiranga. E a batalha sadia continuava entre os alunos do Colégio Estadual Góis Calmon (é pequeno mas é bom), do Severino Vieira (entra vivo e sai caveira), Anísio Melhor (entra burro e sai pior). Meu Deus, quem mais se lembra disso? Anna Amélia Marback, me ajude a lembrar!

Ele, meu pai, guardião das suas princesas, nos regia o hino. Era o Dois de Julho. Simbolicamente a minha independência. O Sol que brilha mais que o primeiro. Ouçam e vejam o video abaixo. (http://www.youtube.com/)

Inté!

p.s. O Brasil acaba de ganhar (há controvérsias). Mas ponto de vista é ponto de vista. Ponto. Pronto.




segunda-feira, 14 de junho de 2010

QUE PAÍS É ESTE?

UMA RESPOSTA POSSÍVEL PARA AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA


? ETSE É SÍAP EUQ
É o contrário de tudo o que se pode imaginar
É o país do avesso
É o país que não começa no começo
É o vesgo atravessado
Lugar alinhavado e incontente
Que numa resposta possível
Só pode existir de trás pra frente.


Eu, Neuzamar, através deste virtual meio de estar nos mundos, atesto que escrevi os versos acima e sou agraciada por muitas coisas nesta vida por ser crente nela e por ser sentinela das palavras que não aceitam o claustro. Atesto a minha graça, vaidosamente falando, de ser colaboradora e amiga de longas datas do poeta Affonso Romano de Sant'Anna - mesmo desde antes da feliz época do PROLER, criado por ele quando presidente da Biblioteca Nacional - além de ser uma das suas amantes. Marina Colasanti que me perdoe, mas ela há de perdoar também o séquito do harém literário do seu marido. Aliás, já falei, numa publicação anterior, a respeito desse negócio dos meus amantes e amores. Só para não me comprometer... também sou amante da Marina e só de pensar em Contos de Amor Rasgados (Rocco, 1986), fico arrepiada.

Atesto que testemunhei a brilhante aula conferência no Departamento de Letras na Universidade Federal da Bahia - UFBA - no dia 26 de maio, quando o poeta falava sobre os 30 anos do seu poema Que país é este?
É impossível transcrever a aula do sempre nosso professor porque o imaterial é intranscrevível, principalmente quando se sabe que o poema foi ecrito num momento de perplexidade dentro de uma nação onde o povo estava sob as agonias de um regime totalítário. O poema tomou vulto, virou pôster, virou música, foi publicado em outros países, em outros idiomas. As muitas experiências relatadas pelo poeta foram transformadas em informações e portos de partidas para plateia de professores, estudantes e apreciadores, todos ávidos de chegadas nos portos do conhecimento.


Não quero me prender exatamente à palestra de Affonso Romano - um pensador que nos faz pensar - nem à sua obra porque a crítica especializada no assunto já faz isso muito bem. Recentemente o crítico literário, Wilson Martins, disse: Não pode haver nenhuma dúvida: ele é não só um poeta do nosso tempo, integrado nos seus problemas e perplexidades, nas incertezas sucessivas que as certezas se resolvem (...). O segredo da sua extraordinária qualidade como poeta está em que ele é, antes de mais nada, um intelectual de grande gabarito, sem nenhuma das ingenuidades mentais que mantêm a produção corrente no nível rasteiro das pequenas emoções domésticas e nas dimensões microscópicas da autobiografia insignificante.


Quem me lê, de vez em quando, sabe que escrevo sobre o que sinto pelas pessoas e pelas coisas... Por isso o Escrevivendo (palavra que roubei talvez do próprio Affonso ou do Rubem Alves) que utilizo na abertura deste Blog. Falo, portanto, do que pensei no durante e no pós palestra. Tudo o que o outro fala nos permite a viagem do nosso pensamento. É mais ou menos na base do quem tem ouvidos que ouça... Quem tem olhos que veja e quem tem cérebro que pense. Quem não tem nada que invente (rsrs...). No entanto, o que está escrito dentro destes dois livros, na imagem abaixo (presentes e com direito também às flores), serve de mais argumentos para responder a intrigante pergunta "Que país é este?". Pensemos apenas nos títulos e façamos mais uma pergunta muito doida: qual o enigma dos vestígios contidos no vazio?

Daí eu ficar em estado de perplexidade, pensando em todos os outros países que, em nome de alguma coisa que a minha inteligência não quer alcançar, cometem absurdos tão escabrosos contra o ser humano. Apenas um exemplo: Por que na África do Sul os pobres foram escondidos atrás de muros para que não sejam vistos pelos turistas que estão assistindo à Copa? Não seria melhor nós nos escondermos, envergonhados, por permitir que isso aconteça? O que têm aqueles homens que ficam brincando com uma bola e ganhando um montão de dinheiro que daria para alimentar famintos, construir casas, escolas, hospitais, investir em pesquisas científicas para o bem de todo o mundo? Nada contra os jogadores, mas contra um sistema infeliz que desiguala pessoas. Platão já falava sobre isso, na Grécia, há "trocentos" anos.

Então a pergunta de Affonso é muito mais complexa do que podemos imaginar, para ser respondida, porque não se trata apenas deste nosso país, mas dos países todos que estão dentro desta bola maior que é o Globo Terrestre. Nós - que nos dizemos humanos e que temos paifilhoespíritosantoamém -, o que estamos fazendo para impedir que façam a outrem o que não queremos para nós mesmos? Nem carece mais exemplificar sobre as desgraças acontecidas no berço do poema "Que país é este?".

Na verdade o enigma vazio somos nós. Somos a bomba de nêutrons que não deixa vestígios de seres vivos quando (nos) lançamos sobre os "inimigos" (os pobres?) e dizemos que não fizemos. Somos "inteligentes" porque não duelamos mais com armas, mas ficamos olhando um para o outro e duelamos terrivelmente (D.Franco). Silenciosamente somos o avesso que não pensa num possível recomeço para a humanidade. Steve Biko, sul-africano que lutou contra a segregação racial, social e econômica no seu país, deve estar muito triste - mesmo lá no céu - porque não foi por isto que ele lutou para todos nós, seus parentes, pretos, brancos, ricos, pobres.

Que país é este, aquele, aqueloutro? Que mundo é este? Conforme se leu durante o texto não há respostas únicas e simples para a pergunta do poeta porque os lixos nossos de cada dia estão sob os tapetes persas. Estão sob os escombros globais.

Sítio de Eliana Salvador, no alto das montanhas, três horas da tarde.

Hasta la vista!