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segunda-feira, 14 de junho de 2010

QUE PAÍS É ESTE?

UMA RESPOSTA POSSÍVEL PARA AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA


? ETSE É SÍAP EUQ
É o contrário de tudo o que se pode imaginar
É o país do avesso
É o país que não começa no começo
É o vesgo atravessado
Lugar alinhavado e incontente
Que numa resposta possível
Só pode existir de trás pra frente.


Eu, Neuzamar, através deste virtual meio de estar nos mundos, atesto que escrevi os versos acima e sou agraciada por muitas coisas nesta vida por ser crente nela e por ser sentinela das palavras que não aceitam o claustro. Atesto a minha graça, vaidosamente falando, de ser colaboradora e amiga de longas datas do poeta Affonso Romano de Sant'Anna - mesmo desde antes da feliz época do PROLER, criado por ele quando presidente da Biblioteca Nacional - além de ser uma das suas amantes. Marina Colasanti que me perdoe, mas ela há de perdoar também o séquito do harém literário do seu marido. Aliás, já falei, numa publicação anterior, a respeito desse negócio dos meus amantes e amores. Só para não me comprometer... também sou amante da Marina e só de pensar em Contos de Amor Rasgados (Rocco, 1986), fico arrepiada.

Atesto que testemunhei a brilhante aula conferência no Departamento de Letras na Universidade Federal da Bahia - UFBA - no dia 26 de maio, quando o poeta falava sobre os 30 anos do seu poema Que país é este?
É impossível transcrever a aula do sempre nosso professor porque o imaterial é intranscrevível, principalmente quando se sabe que o poema foi ecrito num momento de perplexidade dentro de uma nação onde o povo estava sob as agonias de um regime totalítário. O poema tomou vulto, virou pôster, virou música, foi publicado em outros países, em outros idiomas. As muitas experiências relatadas pelo poeta foram transformadas em informações e portos de partidas para plateia de professores, estudantes e apreciadores, todos ávidos de chegadas nos portos do conhecimento.


Não quero me prender exatamente à palestra de Affonso Romano - um pensador que nos faz pensar - nem à sua obra porque a crítica especializada no assunto já faz isso muito bem. Recentemente o crítico literário, Wilson Martins, disse: Não pode haver nenhuma dúvida: ele é não só um poeta do nosso tempo, integrado nos seus problemas e perplexidades, nas incertezas sucessivas que as certezas se resolvem (...). O segredo da sua extraordinária qualidade como poeta está em que ele é, antes de mais nada, um intelectual de grande gabarito, sem nenhuma das ingenuidades mentais que mantêm a produção corrente no nível rasteiro das pequenas emoções domésticas e nas dimensões microscópicas da autobiografia insignificante.


Quem me lê, de vez em quando, sabe que escrevo sobre o que sinto pelas pessoas e pelas coisas... Por isso o Escrevivendo (palavra que roubei talvez do próprio Affonso ou do Rubem Alves) que utilizo na abertura deste Blog. Falo, portanto, do que pensei no durante e no pós palestra. Tudo o que o outro fala nos permite a viagem do nosso pensamento. É mais ou menos na base do quem tem ouvidos que ouça... Quem tem olhos que veja e quem tem cérebro que pense. Quem não tem nada que invente (rsrs...). No entanto, o que está escrito dentro destes dois livros, na imagem abaixo (presentes e com direito também às flores), serve de mais argumentos para responder a intrigante pergunta "Que país é este?". Pensemos apenas nos títulos e façamos mais uma pergunta muito doida: qual o enigma dos vestígios contidos no vazio?

Daí eu ficar em estado de perplexidade, pensando em todos os outros países que, em nome de alguma coisa que a minha inteligência não quer alcançar, cometem absurdos tão escabrosos contra o ser humano. Apenas um exemplo: Por que na África do Sul os pobres foram escondidos atrás de muros para que não sejam vistos pelos turistas que estão assistindo à Copa? Não seria melhor nós nos escondermos, envergonhados, por permitir que isso aconteça? O que têm aqueles homens que ficam brincando com uma bola e ganhando um montão de dinheiro que daria para alimentar famintos, construir casas, escolas, hospitais, investir em pesquisas científicas para o bem de todo o mundo? Nada contra os jogadores, mas contra um sistema infeliz que desiguala pessoas. Platão já falava sobre isso, na Grécia, há "trocentos" anos.

Então a pergunta de Affonso é muito mais complexa do que podemos imaginar, para ser respondida, porque não se trata apenas deste nosso país, mas dos países todos que estão dentro desta bola maior que é o Globo Terrestre. Nós - que nos dizemos humanos e que temos paifilhoespíritosantoamém -, o que estamos fazendo para impedir que façam a outrem o que não queremos para nós mesmos? Nem carece mais exemplificar sobre as desgraças acontecidas no berço do poema "Que país é este?".

Na verdade o enigma vazio somos nós. Somos a bomba de nêutrons que não deixa vestígios de seres vivos quando (nos) lançamos sobre os "inimigos" (os pobres?) e dizemos que não fizemos. Somos "inteligentes" porque não duelamos mais com armas, mas ficamos olhando um para o outro e duelamos terrivelmente (D.Franco). Silenciosamente somos o avesso que não pensa num possível recomeço para a humanidade. Steve Biko, sul-africano que lutou contra a segregação racial, social e econômica no seu país, deve estar muito triste - mesmo lá no céu - porque não foi por isto que ele lutou para todos nós, seus parentes, pretos, brancos, ricos, pobres.

Que país é este, aquele, aqueloutro? Que mundo é este? Conforme se leu durante o texto não há respostas únicas e simples para a pergunta do poeta porque os lixos nossos de cada dia estão sob os tapetes persas. Estão sob os escombros globais.

Sítio de Eliana Salvador, no alto das montanhas, três horas da tarde.

Hasta la vista!