Quem sou eu

domingo, 26 de setembro de 2010

NAS PALAVRAS E IMAGENS: AMIGOS...

Palavras são ecos da nossa alma. São reais para quem as emite. A imagem fala, sugere... A palavra diz! Falar é inerência. Dizer é a profundeza do pensamento que enuncia os suores trans-pirados pelo coração. Juntas, palavras e imagens, se inscrevem em nós principalmente quando abraçadas aos poemas. Vejam e sintam:

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Feliz aniversário, Lily (nome que é uma espécie de lírio em inglês).

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E MAIS


sábado, 18 de setembro de 2010

sempreAMIGOSempre

Imagens não dispensam palavras. Imagens completam os sentimentos das palavras. Os amigos acolhem nossas palavras dentro das imagens.


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VIRÃO OUTROS MAIS...

SERES-MONUMENTOS

Entre as sete maravilhas do mundo antigo estão as Pirâmides do Egito. Entre as sete maravilhas do mundo moderno está o Taj Mahal na Índia. Pode haver alguma discordância a respeito das maravilhas que temos a mania de ir classificando pela vida afora. Na verdade a arte não precisa de classificação, mas apenas da nossa admiração. Claro que temos o direito de preferir isto ou aquilo, no entanto é provável que todos concordem que a verdadeira maravilha do mundo é a energia que o ser humano coloca nas suas ações quando cria, quando transforma e quando eterniza a sua passagem pelo mundo com as suas nobres e generosas atitudes.

Não importa muito, no momento, os motivos para a idealização e concretização dos dois grandes monumentos citados como exemplo. Por serem grandes são vistos e sabidos por qualquer pessoa que já tenha passado os olhos em algum livro, ou ouvido a história contada por alguém. E as ações humanas, às vezes tão pequeninas, mas de um valor inestimável e não prestamos atenção? Onde elas acontecem? Muitas vezes tão perto de nós...

Com a visão embaçada, por uma série de razões, não conseguimos ver os anjos que trabalham na nossa praia enquanto relaxamos a mente. Esses anjos zelam por nós praticamente de graça. Afinal para que anjo precisa de dinheiro? Não são grandes como as Pirâmides ou o Taj por isso mal são vistos. Enquanto as consideradas maravilhas do mundo são protegidas contra a ação do tempo, os nossos anjos mal têm protetor solar e equipamentos para ajudá-los a evitar que nós sejamos tragados pelo mar na nossa imprudência, na inocência das crianças e na desobediência dos adolescentes que, algumas vezes, ouvi debochar das orientações dos nossos salva-vidas.

Não sei o nome de todos os anjos da praia de Villas porque meu banho de mar e minhas observações ficam restritas entre as barracas da Gávea e Boteco do Caranguejo. Enquanto eles nos guardam, eu os atrapalho puxando conversa, mas seus olhos não se desviam do mar. Muitas vezes a conversa é interrompida e quando me dou conta suas asas já crescerem e num segundo estão dentro d’água cumprindo a missão amorosa que lhes foi destinada: a arte de salvar. A arte da preservação da vida de desconhecidos.

Com essa crônica quero homenagear os nossos anjos salva-vidas: Sandra – a quem apelidei de olhos de águia; Adailton – tigre veloz; Raimundo – peixe das pedras; Davi - homem peixe. A homenagem se estende aos outros salvadores, sementes que germinam por toda a praia e que todos os dias nos presenteiam com suas lições de solidariedade, bondade, paciência, cuidado e amor. Seres-Monumentos que nós precisamos preservar.



É SEMPRE TEMPO DE DIZER

É SEMPRE TEMPO DE DIZER...


Na primeira noite,
Eles se aproximam
E colhem uma flor
De nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
Já não se escondem:
Pisam as flores,
Matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada

No trecho do poema acima - NO CAMINHO COM MAIAKOWSKY (Eduardo Alves da Costa) – é possível abrir margem para interpretações e entendimentos diferentes porque pode dirigir o nosso olhar para onde queiramos. Embora seja sempre muito interessante discutir literatura, neste momento, no entanto, escolho desviar os meus olhos para uma questão que foi levantada, no site cafecomnoticias.com.br, (12/02/10), na crônica Seres-Monumentos, quando escrevi sobre a importância de prestarmos atenção aos nossos salva-vidas, os quais chamei de anjos.

Em verdade, apenas registrei os sentimentos da minha alma, sempre movida pelo Amor pela vida, pelos seres viventes e por esse universo que nos acolhe. O resultado do que escrevi foi positivo porque foi fruto também do olhar dos freqüentadores da praia de Villas (Lauro de Freitas)  e de jornalistas atentos. Não podemos esquecer que juntos somos uma força indestrutível porque nada tememos; porque não permitimos que pisem nossas flores nem matem nosso cão. Ninguém nunca nos roubará a lua nem arrancará a voz da nossa garganta porque não nos omitimos; porque sabemos dizer o que sai do coração e dizemos quando é necessário.

Solidariamente a nossa comunidade contribuiu com seus comentários de apoio ao que noticiamos e nos fizemos ouvir pela administração municipal: hoje, 12 de fevereiro, os salva-vidas receberam parte do equipamento de que precisam para trabalhar. Estavam felizes e empolgados! Nós que noticiamos, bem como os freqüentadores da praia, ficamos agradecidos por termos nossas reivindicações atendidas.

Binóculos, pés de patos, rádio comunicador, máscara para respiração artificial e colete cervical para as vítimas de afogamento com suspeita de trauma na coluna. (vide fotos). Porém ainda continuamos no aguardo do pranchão, novas bandeiras,  o indispensável kit de primeiros socorros e a continuação da construção dos outros mirantes necessários ao longo da praia. Agora confiamos que periodicamente virão também para os salva-vidas: colírios, protetor solar, óculos escuros e o ticket alimentação a fim de que almocem sem dependerem da generosidade dos donos das barracas e das baianas de acarajé.





 









Dizer com o coração traz boa sorte. É sempre tempo de dizer, portanto. Dizer para crescer e ajudar o outro a crescer, descobrir e desenvolver o que há de melhor em nós e nos outros. Essa é a lição do Amor, a única experiência verdadeiramente real e duradoura da vida. A essência dos relacionamentos, o oposto do medo, fonte da felicidade, energia que vive dentro de nós e nos une a todos os seres. Energia poderosa que nos faz dizer para que não nos arrependamos, um dia, de não termos dito nada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

DE NOVO

Mais um 31 que se avizinha
silencioso
sob o meu travesseiro.


Mais um 31 que pergunta
inquieto
sob o sol aniverseiro.


Mais um 31 que insiste
teimoso
em mais velas acender.


Mais um 31 que me grita
desvairado:
quando vai se acontecer?


31 de agosto de 2010
Neuzamaria Kerner

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MASCULINO MUDA SORTE

Não era tristeza, não era dor, não era doença. Era um sentimento incômodo, uma coisa que vinha de dentro que o deixava desanimado e, por várias vezes, mais do que desânimo, entrava quase que num estado de prostração por dias a fio. Era aquela vontade de nada: nem de morrer nem de viver, nem de dormir nem de acordar, nem de comer nem...  Pensava quando tinha disposição ou quando o pensamento criava vontade própria e se instalava, sem pedir licença, na mente desgovernada. No que pensava mesmo? Talvez na dureza da vida. Vida. Tão boa para uns, tão ingrata ou indiferente para outros. Era ruindade o que a vida estava fazendo a ele. Ruindade da pior. E a vergonha de pedir ajuda aos vizinhos ou aos parentes? "É um vagabundo preguiçoso que dorme o dia todo e nem sai do barraco para procurar o que fazer". Era isso que ouvia pelas frestas das tábuas. "Não sou vagabundo, só estou desafortunado. Deve ser culpa da crise de fora e de dentro. É o sistema". Pensava.

Vida é feminino. Pobreza é feminino. Alegria é feminino. Mulher é feminino. Por isso nunca se dera bem com o feminino até para amar. Gostar do masculino não era defeito. Disso tinha consciência, mas naquela situação nem amigo arranjava para desabafos ou desafogos. Dormiu pensando em um que tivera, mas o abandonara assim que a necessidade - também feminino - bateu à porta. Esse abandono doeu mais do que a pobreza em que estava vivendo desde que se entendia por gente.

Sonhousonhousonhounoiteinteira. Cachorro, cavalo, boi, jacaré habitaram seus sonhos. Lutou com todos, ficou todo lanhado e saiu vencedor. Acordou até cansado de tanta batalha - pelo menos os bichos eram machos. De repente o dia e o pensamento - ambos masculinos - trouxeram uma ideia: tabela dos animais do jogo de bicho. Trocados contados. Força criada, embora os tremores de uma barriga vazia. Foi à lotérica. Apostou. Ousou. Acrescentou o 24 na mega mesmo sabendo que, se não desse certo, estaria zerado provavelmente para sempre amém.

Bingo!!!

Como por encanto aquela coisa inexplicável que lhe sufocava a alma e as vontades desapareceu. Meio zonzo com a mudança da sorte, sem saber ainda para onde ir, voltou ao barraco e lá estava aboletado no colchão de capim que lhe servira de cama, o carinha. Aquele mesmo que na hora do deus-me-acuda sumira. Olhou no fundo dos olhos do deitado e ia abrindo a boca para dizer qualquer coisa... Não valia a pena. Virou as costas para aquele passado e saiu pela rua para ser acolhido pelo novo Dia, bem masculino e com D maiúsculo.

Olhar pra trás... jamais! -  pronunciou do jeito francês.

p.s. texto escrito em casa... sem ter absolutamente nada pra fazer.
p.s.2. e viva Mariá Pinkusfeld!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O DOIS DE JULHO É MEU PAI.

... E não pode ser de outra forma porque a minha referência é puramente sentimental. O livro de História da Bahia me ensinou uma coisa sobre o Dois de Julho que, em verdade, foi apenas a ponte que conduziu a celebração baiana para os meus átrios cardíacos. Nesses espaços meu pai sacralizou o meu Dois de Julho.



Bom, quem me sabe, sabe também como aprendi (oficialmente) a ler: meu pai pegava um jornal e ía me mostrando as letras grandes... Aprendi o ABC (a bê cê dê é fê guê agá i ji lê mê nê ó pê quê rê si tê u vê xis zê) direto e salteado e depois solenemente soletrei o meu nome: Nê É U -neu- Z A -za- M A -ma- R i -ri- A. Quem quiser saber como é isso é só pesquisar e ouvir o Galope à Beira Mar Soletrado (Xangai e Ivanildo Vilanova).

Ler e escrever o meu nome. O que há mais de meu, a minha alma. Foi a Glória!!!

Extra oficialmente eu já havia aprendido a ler as histórias e mentiras escabrosas e engraçadíssimas e assombrantes de meu pai. Só pra me gabar mais, por ele e com ele, eu conhecia as histórias de Sherazade de trás pra frente e de frente pra trás. Isso sem falar que aos 11 anos eu já era íntima do poeta da antiga Pérsia, atual Irã, Omar Khayyam (1048-1131), um dos primeiros da fila dos meus amantes.

Então, no Dois de Julho, meu pai levava a mim e minhas irmãs - Marise e Marinalva - para a Lapinha. Logo cedo mainha providenciava o nosso banho, o pentear dos cabelos. Na pele rescendia o cheiro de seiva de alfazema da phebo. Lá íamos, quase Marias Quitérias marchando cataventos verdes e amarelos e bandeirinhas azulvermelhobranco de Brotas até a Lapinha. Nesse trajeto histórias mil iam sendo contadas pelo cara mais sábio do mundo. Éramos educadas  para a vida dos iguais e diversos nessa caminhada. Por isso somos limpinhas.

Repentinamente o carro do Caboclo e da Cabocla se descortinava em penas deslumbrantes diante de nossos olhos arrebatados de cores. As marchas e dobrados tocados pelas bandas do Corpo de Bombeiros  e da Polícia Militar bumbavam no peito baiano. Os alunos das escolas disputavam a melhor posição com suas fanfarras e com as meninas mais bonitas, fazendo evoluções com suas balizas, sendo o destaque principal, a aluna, Semírames, do Colégio Ypiranga. E a batalha sadia continuava entre os alunos do Colégio Estadual Góis Calmon (é pequeno mas é bom), do Severino Vieira (entra vivo e sai caveira), Anísio Melhor (entra burro e sai pior). Meu Deus, quem mais se lembra disso? Anna Amélia Marback, me ajude a lembrar!

Ele, meu pai, guardião das suas princesas, nos regia o hino. Era o Dois de Julho. Simbolicamente a minha independência. O Sol que brilha mais que o primeiro. Ouçam e vejam o video abaixo. (http://www.youtube.com/)

Inté!

p.s. O Brasil acaba de ganhar (há controvérsias). Mas ponto de vista é ponto de vista. Ponto. Pronto.

video



segunda-feira, 14 de junho de 2010

QUE PAÍS É ESTE?

UMA RESPOSTA POSSÍVEL PARA AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA


? ETSE É SÍAP EUQ
É o contrário de tudo o que se pode imaginar
É o país do avesso
É o país que não começa no começo
É o vesgo atravessado
Lugar alinhavado e incontente
Que numa resposta possível
Só pode existir de trás pra frente.


Eu, Neuzamar, através deste virtual meio de estar nos mundos, atesto que escrevi os versos acima e sou agraciada por muitas coisas nesta vida por ser crente nela e por ser sentinela das palavras que não aceitam o claustro. Atesto a minha graça, vaidosamente falando, de ser colaboradora e amiga de longas datas do poeta Affonso Romano de Sant'Anna - mesmo desde antes da feliz época do PROLER, criado por ele quando presidente da Biblioteca Nacional - além de ser uma das suas amantes. Marina Colasanti que me perdoe, mas ela há de perdoar também o séquito do harém literário do seu marido. Aliás, já falei, numa publicação anterior, a respeito desse negócio dos meus amantes e amores. Só para não me comprometer... também sou amante da Marina e só de pensar em Contos de Amor Rasgados (Rocco, 1986), fico arrepiada.

Atesto que testemunhei a brilhante aula conferência no Departamento de Letras na Universidade Federal da Bahia - UFBA - no dia 26 de maio, quando o poeta falava sobre os 30 anos do seu poema Que país é este?
É impossível transcrever a aula do sempre nosso professor porque o imaterial é intranscrevível, principalmente quando se sabe que o poema foi ecrito num momento de perplexidade dentro de uma nação onde o povo estava sob as agonias de um regime totalítário. O poema tomou vulto, virou pôster, virou música, foi publicado em outros países, em outros idiomas. As muitas experiências relatadas pelo poeta foram transformadas em informações e portos de partidas para plateia de professores, estudantes e apreciadores, todos ávidos de chegadas nos portos do conhecimento.


Não quero me prender exatamente à palestra de Affonso Romano - um pensador que nos faz pensar - nem à sua obra porque a crítica especializada no assunto já faz isso muito bem. Recentemente o crítico literário, Wilson Martins, disse: Não pode haver nenhuma dúvida: ele é não só um poeta do nosso tempo, integrado nos seus problemas e perplexidades, nas incertezas sucessivas que as certezas se resolvem (...). O segredo da sua extraordinária qualidade como poeta está em que ele é, antes de mais nada, um intelectual de grande gabarito, sem nenhuma das ingenuidades mentais que mantêm a produção corrente no nível rasteiro das pequenas emoções domésticas e nas dimensões microscópicas da autobiografia insignificante.


Quem me lê, de vez em quando, sabe que escrevo sobre o que sinto pelas pessoas e pelas coisas... Por isso o Escrevivendo (palavra que roubei talvez do próprio Affonso ou do Rubem Alves) que utilizo na abertura deste Blog. Falo, portanto, do que pensei no durante e no pós palestra. Tudo o que o outro fala nos permite a viagem do nosso pensamento. É mais ou menos na base do quem tem ouvidos que ouça... Quem tem olhos que veja e quem tem cérebro que pense. Quem não tem nada que invente (rsrs...). No entanto, o que está escrito dentro destes dois livros, na imagem abaixo (presentes e com direito também às flores), serve de mais argumentos para responder a intrigante pergunta "Que país é este?". Pensemos apenas nos títulos e façamos mais uma pergunta muito doida: qual o enigma dos vestígios contidos no vazio?

Daí eu ficar em estado de perplexidade, pensando em todos os outros países que, em nome de alguma coisa que a minha inteligência não quer alcançar, cometem absurdos tão escabrosos contra o ser humano. Apenas um exemplo: Por que na África do Sul os pobres foram escondidos atrás de muros para que não sejam vistos pelos turistas que estão assistindo à Copa? Não seria melhor nós nos escondermos, envergonhados, por permitir que isso aconteça? O que têm aqueles homens que ficam brincando com uma bola e ganhando um montão de dinheiro que daria para alimentar famintos, construir casas, escolas, hospitais, investir em pesquisas científicas para o bem de todo o mundo? Nada contra os jogadores, mas contra um sistema infeliz que desiguala pessoas. Platão já falava sobre isso, na Grécia, há "trocentos" anos.

Então a pergunta de Affonso é muito mais complexa do que podemos imaginar, para ser respondida, porque não se trata apenas deste nosso país, mas dos países todos que estão dentro desta bola maior que é o Globo Terrestre. Nós - que nos dizemos humanos e que temos paifilhoespíritosantoamém -, o que estamos fazendo para impedir que façam a outrem o que não queremos para nós mesmos? Nem carece mais exemplificar sobre as desgraças acontecidas no berço do poema "Que país é este?".

Na verdade o enigma vazio somos nós. Somos a bomba de nêutrons que não deixa vestígios de seres vivos quando (nos) lançamos sobre os "inimigos" (os pobres?) e dizemos que não fizemos. Somos "inteligentes" porque não duelamos mais com armas, mas ficamos olhando um para o outro e duelamos terrivelmente (D.Franco). Silenciosamente somos o avesso que não pensa num possível recomeço para a humanidade. Steve Biko, sul-africano que lutou contra a segregação racial, social e econômica no seu país, deve estar muito triste - mesmo lá no céu - porque não foi por isto que ele lutou para todos nós, seus parentes, pretos, brancos, ricos, pobres.

Que país é este, aquele, aqueloutro? Que mundo é este? Conforme se leu durante o texto não há respostas únicas e simples para a pergunta do poeta porque os lixos nossos de cada dia estão sob os tapetes persas. Estão sob os escombros globais.

Sítio de Eliana Salvador, no alto das montanhas, três horas da tarde.

Hasta la vista!






domingo, 30 de maio de 2010

A VIDA DOS OUTROS

Ora, não sejamos falsos! Todos gostamos de saber da vida dos outros. Uns mais outros menos... Uns tantos até espalham, aumentam, fofocam, o conteúdo vira maledicência. Aí vira aquela confusão tamanha que dá até processo: calúnia-injúria-difamação-etc. O negócio já virou crime, já tem cadáver no IML, choros e ranger de dentes. Nossa! Meu assunto já virou coisa gótica, bizarra, macabra. Alto lá!


Bem, sobre a vida dos outros uns poucos - sábios - silenciam, não julgam, não condenam. Apenas entendem como funciona a nossa humana(idade). Não por sapiência, há os cautelosos (medrosos?): "não sei, não vi, estava olhando pro outro lado, pensando em outra coisa... vejam só como sou desatento!" De qualquer forma é conveniente não ter visto mesmo porque nunca se sabe aonde vai parar o que se viu. Ou o que não se quis ver.


Na verdade a gente gosta mesmo de saber da vida dos outros. Faz parte do jogo de viver. Vamos, confesse que gosta. Alto lá! Está me chamando de abelhuda? Isso está me cheirando a casa de abelhas.


Pronto. Eu confesso. Eu gosto. Mas também não vou atrás da vida dos outros, não fico olhando pelos buracos de fechaduras, especulando. Às vezes os outros se expõem de tal forma que é inevitável deixar de tomar conhecimento do que se passa na casa dos vizinhos na calada da noite. Ou na noite que deveria estar calada as duas e meia da madrugada para que eu pudesse continuar meu justo e merecido sono.


Então vou logo dizendo a que vim. Ponto. A vida dos outros entrou na minha vida lá pelas nove da noite juntamente com o som altíssimo da televisão. Hummm... eles gostam desse canal de tv, aliás é um péssimo gosto - se é da minha conta. Me deito cedo, gosto de ler na cama. Será que eles não entendem que eu preciso de silêncio? Começaram uma discussão. É um casal. Alguém chutou a cadeira e pelo baque deve ter sido ele. "Cavalo!" - ela cisca do outro aposento. Começo a imaginar onde cada um está porque a arquitetura dos nossos imóveis é igual. Outro barulho atravessa a parede e entra na página do livro que estou lendo. Desta vez foi a tampa de uma panela caindo no chão. Ela está na cozinha, com certeza.


Mesmo havendo uma distância considerável entre nossas moradias, identifico tudinho. Pelo barulho. Alguém deve estar batendo suco de polpa de fruta no liquidificador. Entendo disso muito bem. Latas caindo no chão. Deve ser de cerveja e, pelo baque da porta da geladeira, o cara deve estar virado no serereco... Ainda vai ter que pagar uma porta nova à assistência técnica. Amanhã cedo comprarei um protetor auricular, do bom, igual ao daqueles caras do aeroporto. Decido.


Faltam oito minutos e meio para a meia-noite. O livro recusa meus olhos ou o contrário, já nem sei mais. Adormeço. Êpa, meu Deus, o que é isso agora? Como são barulhentos!... gemidos, urros, relinchos. Como ela grita! Já sei, também conheço esses tipos de gemido. Mas assim também já é demais, comadre! É sexo. E selvagem. Só pode! Lembro do 'cavalo!' das nove da noite. Putz, eu quero dormir. Mais sons característicos invadem meu espaço e ninguém é inocente pra não saber do que estou falando. Darei queixa ao síndico!


Alto lá! Não estou com inveja, não. Só quero dormir porque já são duas e vinte e dois. Água de chuveiro. Ouço. Vão silenciar. Graças a Deus já deram a carga elétrica um no outro. Oh, nãaaooo!!! Isso é barulho de secador e ainda por cima a desgraçada tem cabelos compridos e volumosos.

Não tem síndico, nem disk-silêncio, nem vou gritar - me igualando, é claro! Mas me vingarei assim que o dia amanhecer. Eu não entrei na vida deles. Eles é que entraram na minha. Alguns se vingam na frieza das madrugadas. Eu não. Quando o sol arder, pela manhã, muita gente haverá de ler sobre a vida dos meus vizinhos. Dizem que vingança é um prato que se come frio, mas a minha vou comer fervendo. Não sou tão evoluída espiritualmente assim, nem vou esperar a próxima encarnação. Podes crer, amizade!


Estou na madrugada de seis de março de dois mil e dez.












sexta-feira, 21 de maio de 2010

MEU AMOR POR DAMÁRIO DACRUZ


Há muitos anos, nem lembro mais quando, andando pela Av. Sete de Setembro, em Salvador (BA), meus olhos viram uma luz enfeitando toda a calçada coalhada de ambulantes, passantes, artesãos... Era um poema-postal, imenso, encostado junto a um rapaz que, sentado tranquilamente, fazia brincos, pulseiras, anéis, colares e toda a sorte de preciosidades que só os artesãos sabem fazer.
Li o poema do postal e fui sendo tomada por uma espécie de maravilhamento. Naquela hora tive a certeza de que havia marcado um encontro com alguém que faria parte da minha vida para sempre. Não estava em sua forma humana como normalmente vemos o outro. Era Damário Dacruz, em forma de alma, levitando palavras. Era o poema da imagem acima. Não tive medo dos caminhos e arrisquei perguntar se estava à venda. Não esperava uma negativa. Foi. Perguntei se, pelo menos, poderia copiar. Sim.
TODO RISCO
A possibilidade
de arriscar
é que nos faz homens.
Vôo perfeito
no espaço que criamos.
Ninguém decide
sobre os passos
que evitamos.
Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos.
Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos.
Depois de copiado, apressadamente, em meio aos empurrões do povo que passava, supliquei ao rapaz que me vendesse, mas ele, na forma serena que os hippies artesãos têm de falar, respondeu-me: nas livrarias tem. Saí dali caçando o tesouro em todos os lugares. Nada. Então passei a copiar o poema nos meus cadernos, a mimar os meus amigos depositando em suas mãos o Todo Risco do poeta. Eu amava Damário abertamente e ele nem sabia. Amava como amava a Omar Khayyam desde a adolescência; como amava a Castro Alves, a Cecília... Quanto mais eu cresço, mais a lista dos meus amantes cresce. Cheguei a 1,60, porém continuo crescendo - agora - por dentro.
Finalmente, anos depois, uma vitrine de livraria chamou o meu nome. Entrei e abracei o poema-postal de Damário que até hoje enfeita o meu espaço. A sorte continuou me sorrindo e tive a felicidade de roubar da amiga, Baísa Nora, o livro Todo Risco - o ofício da paixão, que Damário Dacruz havia autografado para ela. Roubei, confesso. Ela sabia do meu amor e sempre soube do meu roubo. Criatura generosa e admirável essa minha amiga.
Encontrei esta delicadeza dentro do livro:
Ô DICASA
A poesia
não pede passagem.
Entra
pelo canto da porta
como os pequenos ventos,
ocupando os espaços da casa.
O difícil
é achar gente
dentro de casa.
Mais um tesouro:
TAPA DE LUVA
Os animais
e
as flores silvestres
reunidos decidiram:
O
Homem
não merece
ser
extinto.
Ligo a TV agora à noite e a tristeza me invade. Damário foi pro céu. Corro para o espaço que abriga os meus tesouros e a alegria brilha em mim. Na parede o meu Todo Risco me consola. Pego o celular e fotografo para postar aqui. Na estante o livro roubado me acena e diz sobre a certeza de que não somos pássaros e que voamos. O livro cria asas e vejo Damário voando, agora livre, entre nós, entre o Céu e a Terra. Lembranças a Deus, meu amigo... por favor, aceite este poema que lhe dedico:
viver
é ir ficando toda hora
antes de ir embora
para sempre
(até que reencarne)

domingo, 25 de abril de 2010

O LIVRO DE ELI: UM FILME. O LIVRO.

"- É sério que lê o livro todos os dias?
- Sempre. - Eli se movendo dentro do abrigo recita o Salmo 23 'O Senhor é meu pastor...' e continua dizendo para Solara: isso foi escrito em tempos bem antes de você e eu estarmos aqui, com certeza. (...) .
- O que quis dizer quando disse que não é só um livro qualquer? - Solara pergunta. - Ele é o único.
- Como conseguiu?
- Um dia ouvi uma voz. É difícil de explicar. Mas era como se viesse de dentro de mim.
- O que esta voz disse?
- Ela me guiou para um lugar onde encontrei o livro. A voz me disse para levá-lo no sentido Oeste (...) que seria um lugar seguro... e tenho andado desde então.
- Fez tudo isso porque uma voz na sua cabeça te mandou?
- Sim, fiz. Sei o que escutei. Sei o que ouço. Não estou louco. (...).
- Disse que tem andado por 30 anos. Certo?
- Sim.
- Alguma vez não pensou que estivesse perdido?
- Não.
- Como sabe que está caminhando na direção certa?
- Sou guiado pela fé, não pela visão.
- E o que isso (fé) significa?
- Significa que sabe de algo mesmo que não saiba nada.
- Não faz qualquer sentido.
- Não precisa fazer... é fé. É uma flor de luz em um campo de escuridão. Está dando-me força para continuar. Entendeu?"


O diálogo acima acontece entre Eli (Denzel Washington) e Solara (Mila Kunis) em duas cenas: na 14 os dois estão numa caverna, abrigando-se e descansando para recomeçar a caminhada no dia seguinte; na cena 15 o dia já amanheceu e os dois estão na estrada outra vez, rumo ao Oeste. As cenas fazem parte do filme O Livro de Eli, dirigido pelos irmãos Hughes, 2010, EUA.




Não há como escapar do apelo religioso do filme, embora fosse melhor usar a palavra "religiosidade" - que é mais abrangente - como postura de vida, para explicar a caminhada de Eli. Dentre as várias leituras, no entanto, que toda obra de arte comporta, também é possível entender que o filme é uma homenagem ao Livro. Livro, seja ele qual for, que precisa ser lido e sentido para ser preservado, pelo menos, na memória. No caso do filme o Livro é a Bíblia (Sagrada).

Num mundo de ninguém, na vaziez das estradas segue Eli determinado a cumprir o seu objetivo. Seu dever, melhor dizendo, por causa da crença que o move. Crença em si próprio e crença nas vozes dos inúmeros personagens que clamam pela imortalidade de suas vidas borbulhantes dentro de um universo feito de papel e de palavras, compondo a história da humanidade. O historiador e filósofo, Thomas Carlyle, confirma esse desejo de permanência do ser humano na terra ao dizer que nos Livros está a alma dos tempos passados, sua voz audível, articulada, enquanto já desapareceram, como um sonho, o corpo e as substâncias materiais.

Independentemente das ideias que um Livro divulgue, como objeto guardador de histórias, é o instrumento que possibilita o atravessamento de fronteiras; é a morada das palavras que compõem discursos geradores de aproximações e afastamentos; é o difusor da liberdade de expressão; é o botão que deflagra uma guerra; é a pena que borda as letras da paz numa bandeira fincada no universo; é o grande instrumento que "dessilencia" o oprimido; é o companheiro do solitário e o plenificador de vidas; é o que diz o que o ser humano quer dizer e não sabe como fazê-lo; é o que ensina a certeza da eternidade.

Daí a força da vontade de Eli em dar prosseguimento à sua viagem numa caminhada de alma, sendo guarda costas de um Livro, o tesouro recolhido sob os escombros de um mundo aleijado. Todo o corpo de Eli são olhos, sinal de quem aprendeu a dominar os sentidos. Ele é o contraponto da humana cegueira. Acontece a consubstanciação e Eli é o Livro personificado, imaterial, quando já não há mais Livro na concepção física do objeto como se conhece.

Os diretores de O Livro de Eli recorreram ao conto Bright Phoenix (do escritor Ray Bradbury), que tempos depois foi republicado como Fahrenheit 451 e virou filme nas mãos de François Truffaut em 1966: os Livros eram queimados por serem considerados subversores, num regime ditatorial, porque ensinavam pessoas a pensar criticamente sobre a própria existência e sobre o mundo em que viviam. Em tempos de governos totalitários pensar é crime. A única saída dos resistentes, portanto, era tornarem-se homens-livros numa comunidade de memorizadores de Livros para que as ideias neles contidas não fossem perdidas.À maneira destes também Eli se torna um homem-livro.

Ao tecer estas considerações a respeito do filme o leitor pode elucubrar e depreender que: coincidentemente a antiga prisão de Alcatraz é o local onde os livros são reeditados para que o pensamento continue livre. O Oeste de Eli - o ocaso - é onde o sol se deita para, no dia seguinte, levantar-se em novas esperanças.

Coincidentemente a fênix é o símbolo da bandeira de San Francisco, na California - onde fica Alcatraz -, para onde Eli levou mais no coração do que na mente o seu Livro. Coincidentemente o nome Eli significa "Meu Senhor/O Altíssimo" em hebraico.

Coincidentemente 'Eli, Eli' é um poema (depois musicado) de Hannah Semesh, judia morta num dos campos de concentração, onde o último verso é "...Tfilat ha'adam" (... que a reza do homem - nunca acabe).

Preservar um Livro é uma forma de oração e Eli se fez fênix para que o verbo do Livro continuasse habitando entre nós. Tudo o que se chamou de coincidência tem a ver com tudo. Coincidentemente. Ou não. A essas questões só o Livro tem a resposta.