Quem sou eu

domingo, 30 de maio de 2010

A VIDA DOS OUTROS

Ora, não sejamos falsos! Todos gostamos de saber da vida dos outros. Uns mais outros menos... Uns tantos até espalham, aumentam, fofocam, o conteúdo vira maledicência. Aí vira aquela confusão tamanha que dá até processo: calúnia-injúria-difamação-etc. O negócio já virou crime, já tem cadáver no IML, choros e ranger de dentes. Nossa! Meu assunto já virou coisa gótica, bizarra, macabra. Alto lá!


Bem, sobre a vida dos outros uns poucos - sábios - silenciam, não julgam, não condenam. Apenas entendem como funciona a nossa humana(idade). Não por sapiência, há os cautelosos (medrosos?): "não sei, não vi, estava olhando pro outro lado, pensando em outra coisa... vejam só como sou desatento!" De qualquer forma é conveniente não ter visto mesmo porque nunca se sabe aonde vai parar o que se viu. Ou o que não se quis ver.


Na verdade a gente gosta mesmo de saber da vida dos outros. Faz parte do jogo de viver. Vamos, confesse que gosta. Alto lá! Está me chamando de abelhuda? Isso está me cheirando a casa de abelhas.


Pronto. Eu confesso. Eu gosto. Mas também não vou atrás da vida dos outros, não fico olhando pelos buracos de fechaduras, especulando. Às vezes os outros se expõem de tal forma que é inevitável deixar de tomar conhecimento do que se passa na casa dos vizinhos na calada da noite. Ou na noite que deveria estar calada as duas e meia da madrugada para que eu pudesse continuar meu justo e merecido sono.


Então vou logo dizendo a que vim. Ponto. A vida dos outros entrou na minha vida lá pelas nove da noite juntamente com o som altíssimo da televisão. Hummm... eles gostam desse canal de tv, aliás é um péssimo gosto - se é da minha conta. Me deito cedo, gosto de ler na cama. Será que eles não entendem que eu preciso de silêncio? Começaram uma discussão. É um casal. Alguém chutou a cadeira e pelo baque deve ter sido ele. "Cavalo!" - ela cisca do outro aposento. Começo a imaginar onde cada um está porque a arquitetura dos nossos imóveis é igual. Outro barulho atravessa a parede e entra na página do livro que estou lendo. Desta vez foi a tampa de uma panela caindo no chão. Ela está na cozinha, com certeza.


Mesmo havendo uma distância considerável entre nossas moradias, identifico tudinho. Pelo barulho. Alguém deve estar batendo suco de polpa de fruta no liquidificador. Entendo disso muito bem. Latas caindo no chão. Deve ser de cerveja e, pelo baque da porta da geladeira, o cara deve estar virado no serereco... Ainda vai ter que pagar uma porta nova à assistência técnica. Amanhã cedo comprarei um protetor auricular, do bom, igual ao daqueles caras do aeroporto. Decido.


Faltam oito minutos e meio para a meia-noite. O livro recusa meus olhos ou o contrário, já nem sei mais. Adormeço. Êpa, meu Deus, o que é isso agora? Como são barulhentos!... gemidos, urros, relinchos. Como ela grita! Já sei, também conheço esses tipos de gemido. Mas assim também já é demais, comadre! É sexo. E selvagem. Só pode! Lembro do 'cavalo!' das nove da noite. Putz, eu quero dormir. Mais sons característicos invadem meu espaço e ninguém é inocente pra não saber do que estou falando. Darei queixa ao síndico!


Alto lá! Não estou com inveja, não. Só quero dormir porque já são duas e vinte e dois. Água de chuveiro. Ouço. Vão silenciar. Graças a Deus já deram a carga elétrica um no outro. Oh, nãaaooo!!! Isso é barulho de secador e ainda por cima a desgraçada tem cabelos compridos e volumosos.

Não tem síndico, nem disk-silêncio, nem vou gritar - me igualando, é claro! Mas me vingarei assim que o dia amanhecer. Eu não entrei na vida deles. Eles é que entraram na minha. Alguns se vingam na frieza das madrugadas. Eu não. Quando o sol arder, pela manhã, muita gente haverá de ler sobre a vida dos meus vizinhos. Dizem que vingança é um prato que se come frio, mas a minha vou comer fervendo. Não sou tão evoluída espiritualmente assim, nem vou esperar a próxima encarnação. Podes crer, amizade!


Estou na madrugada de seis de março de dois mil e dez.












9 comentários:

Fernanda e Erlon disse...

Muiitoooo Bom!!! rsrsrsrsrrsrss

Marci disse...

Amiga, querida!!!
Qta sabedoria pra relatar aquilo que todos ouvimos e sentimos com os nossos vizinhos "perturbadores do sono alheio". Eles invadem o nossso espaço sem a mínima cerimônia.
Vc é simplesmente 1000.
Um bjo enorme e saudades.

Carol disse...

Você deveria trabalhar no programa Global A VIDA ALHEIA.

Oswaldo Antônio Begiato disse...

kkkkkkkkkkkk
Amada, só podia mesmo vir de você tamanha percepção.
Adorável o texto. Feito você.
De novo, me encanto.
Parabéns.
Saúde!
bjos.w

Simone Valim disse...

adorei o texto!!
me fez lembrar de um casal de vizinhos que tivemos num ano completamente atipico em que moramos em Bicanga- Serra-ES.
ps:...eu gostava de ouvi-los...rsrs
Beijos amiga!!

Tânia Suzart Arts disse...

Não seriam sussuros e gritinhos vindos da TV ligada em alto e bom som, na nova novela da globo, precisamente no rala e rola de Tony Ramos e Mariana Ximenes?
Coisa de coroa e piriguete?
Fatos como este, nos deixam nervosas mesmo.
kkk.
Abraços

Mary Gomes disse...

Muito bem narrado. Só você consegue transformar um incômodo em algo hilário.
Concordo. Merece ser editado em forma de roteiro para uma TV e com essa qualidade só para as melhores emissoras; uma delas poderia ser a Globo. (rs rs )
Bjs,
Mary

Wandeca disse...

Parece que não conheci esses vizinhos. :) Mas aquela casa que você morou, guarda muita história de vizinhos excêntricos, barulhentos, esquisitos,... Fica na nossa imaginação o real e o imaginário.
Abraços.

Cris Mota disse...

Rsrs, perfeito!

Diga ai querida, td bom?
Sai do orkut por uns tempos, pra me descansar, acho q o orkut exigia muito de mim. rs, fiquei só com o perfil da agencia mesmo.

Bjos!
Cris