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terça-feira, 16 de setembro de 2014

O MUNDO AINDA TEM JEITO: CORAL MARIA PENEDO (IFES – VITÓRIA)

Há muitos anos, em Ilhéus (BA) participei de uma reunião com pessoas dedicadas a construir um mundo melhor para si e para as futuras gerações. Eram pessoas sábias que, como muitas outras, já haviam descoberto o segredo da vida. O segredo do bem viver!

À época a imprensa divulgara uma notícia pavorosa sobre a violência gerada pela eugenia. Não vale a pena relatar porque esse tipo de notícia, nos dias de hoje, vem circulando mais intensamente pela mídia e todos nós sabemos o que o preconceito, seja lá de que tipo for, pode provocar.

Então, eu estava tão chocada com a notícia que disparei com um desabafo: O mundo não tem mais jeito! No círculo os presentes na reunião sentiram a gravidade do que eu havia dito – e como havia dito - silenciaram por um bom tempo. Alguns mantinham os olhos fechados; outros me olhavam com a piedade generosa dos bons. Minutos depois um deles me perguntou:
Neuzamaria, você acha que ainda tem jeito? Eu, com minha forma rápida e estabanada de responder sem pensar, e metida a “tudóloga”, disse: Claro que sim! E continuei justificando a minha resposta cheia de certezas e verdades e experiências e vaidades e orgulhos...

Aí aconteceu uma coisa interessante que eu não esperava. Um dos participantes acrescentou à minha fala: eu também ainda tenho jeito; outro acrescentou a mesma coisa; outro e mais outro. Uma pessoa disse: Então, todos aqui achamos que ainda temos jeito e é por isso que o mundo ainda tem jeito.

Essa introdução toda é porque, na verdade, não sei falar pouco. Sou muito explicativa... Talvez por “defeito” da profissão. A história da reunião que relatei acima é porque assisti ontem, dia 15/09/14, à apresentação de corais (9º ENCORIFES), do Espírito Santo que aconteceu no IFES (campus de Vitória). A abertura foi feita por corais de estudantes jovens. Todos eles empenhados em dar o melhor de si para o enriquecimento do evento. Todos eles, mesmo com as extensas atividades escolares, encontraram tempo para promoverem o musical Estradas do Rock, num esforço muito grande para ajudarem-se mutuamente a fim de que pudessem apresentar um espetáculo que não deixa a desejar diante de espetáculos promovidos por grandes produtores.

O pequeno vídeo abaixo, metáfora que utilizo aqui, para dizer do encanto juvenil que comprovou que trabalhando juntos, todos podem crescer juntos, principalmente na arte de criar, cantar e encantar para sobreviver num mundo, um tanto conturbado, mas onde habitam pessoas que fazem a diferença. Onde o alimento pode ser também a arte musical servida às colheradas para o alimento da alma e onde ninguém pode se alimentar sozinho.

www.youtube.com/watch?v=qhU5JEd-XRo

É preciso que acreditemos que melhorar o mundo é possibilitar que todos se tornem melhores, mesmo sendo diferentes em suas “des-igualdades” humanas. Melhorar o mundo significa que devemos repartir a beleza da arte que todos carregamos dentro de nós (mesmo que não possamos temporariamente expressá-la). Melhorar o mundo é o exercício permanente de primeiro transformar o nosso mundo interior para mudar o exterior que também pertence a todos. Na arte não existe preconceito nem separação e é por isso que temos um caminho para acreditarmos que o mundo pode ter jeito. O mundo somos nós que agimos no bem porque sabemos que nós ainda temos jeito.

O Coral Maria Penedo, regido pela dedicação do maestro Heraldo filho, é composto por jovens que acreditam nesse mundo melhor – vídeo abaixo. Jovens que ajudam a levar felicidade através da música, a apontam caminhos mais suaves para todos, promovendo o aperfeiçoamento pessoal e mostrando que boas atitudes refletirão em mudanças positivas que se expandirão pelo mundo afora.

O mundo ainda tem jeito, sim!



Neuzamaria Kerner
16/09/2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

“...DESAFIA O NOSSO PEITO A PRÓPRIA MORTE...”

Aguentem, por caridade: os prolegômenos são extensos, parte do meu defeito na escrita. Este texto é dedicado a Eliana, que me deu a notícia; a Ritinha Santana, que é escritora baiana como Gregório de Matos; a Ana Rita, professora e doutora que socializará com seus alunos; a Isabela, que deu uma ideia genial; a todos as defensoras e defensores do direito aos seios; a todas que perderam os seios ou até a vida.

Há bastante tempo que não compareço a este espaço que eu mesma criei para expressar sentimentos. Chamei-o de ESCREVIVENDO, posto que, enquanto vivo, escrevo impressões deste mundo onde vivo, do que nele vejo, do que nele leio, em tudo que toco e sinto. Deveria comparecer mais neste blog porque escrever é como respirar; ou deveria também comparecer no outro blog, Jornada Existencial onde, quase que com ferro e fogo, digo que estou aqui para consertar os próprios equívocos a fim de poder seguir em paz. Não posso consertar os equívocos alheios, portanto sempre procuro me concentrar nos meus que já são muitos.

Em verdade, comparecer para se expressar é um ato político no seu mais amplo significado. Pouco tem a ver com política partidária e eu, como ser vivente e pensante, não deveria me omitir tanto afinal de contas vivo em comunidade e desejo o bem, igualmente, para todos nós. De qualquer forma neste momento preciso respirar, escrevendo... pois que estou vivendo um período de horizontalidade por causa de um pequeno acidente doméstico que me levou a uma cirurgia no joelho. Já que não posso ficar na vertical, andando, estou aqui pensando na horizontal, mas sem perder de vista os horizontes tão necessários para que continue caminhando para alcançá-los.

Viver no mato é bom porque lá se respira e se vive melhor, mas quando temos que reentrar na urbe sentimos que é o lugar da apuração dos ouvidos para outros “ouvires” e as devidas interações comunitárias. Porém, de certa forma, viver um tanto quanto isolado no paraíso nosso de cada dia, é um jeito de ser poupado de certos descaramentos promovidos por aqueles que nos governam. Viver no mato pode até ser alienante, mas os passarinhos e outros animais, as águas, as árvores, se portam com uma harmonia invejável e talvez até desconhecida por muitos. Não são descarados. Não mentem descaradamente, como diz o poeta Affonso Romano.

Então, na urbe, recebi a ligação de uma amiga me dizendo, às gargalhadas – de deboche, é claro! – que o povo do feudo condenou à morte por meio do câncer – num decreto feudal, ou édito real – mulheres que não terão mais direito à mamografia nas duas mamas. Certamente, muito em breve, as obrigarão a extirpar um peito a fim de que percam o peito gêmeo, para o bem da economia governamental - Portaria 1.253, publicada pelo Ministério da Saúde que corta o dinheiro da União e nosso destinado aos Estados e Municípios para financiar mamografias feitas em mulheres com idade entre 50 e 69 anos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Confiram nos oráculos da internet.
O que pode me alegrar nesta notícia é que o Brasil (país das estranhezas) tem uma governante MULHER e, provavelmente, ela, com toda a generosidade que lhe é peculiar, bem que poderia ter a ideia de ser a primeira a se oferecer como voluntária para ter um peito arrancado para servir de inspiração a todas as suas governadas. Ter um só peito é mais barato para os “tudólogos” (palavra que ouvi do ilustre professor Ruy do Carmo Póvoas). O que me entristece, no entanto, na nova porcaria - digo portaria -, é que fere um direito já garantido à maioria das mulheres do mundo, de prevenir o câncer - também de mamas - já que no projeto divino da construção feminina todas foram criadas com dois peitos. É um direito adquirido prevenir doenças no sagrado corpo, além de termos tecnologia avançada para isso. Afinal temos dinheiro para construir estádios e outras bobagens que em nada mudam a vida do mundo.
Nossos picos lácteos são tão importantes e belos!... Desde sempre vêm alimentando os “re-nascidos”. Desde sempre alimentam as fantasias masculinas e femininas... Agora estão condenados. Que pena!

Comentando sobre o assunto com outro amigo, ele começou a cantar uma música da inesquecível Clara Nunes:
(...) era um peito só / cheio de promessas / Era um peito só / cheio de promessas... (Conto de areia – Álbum Raízes do Samba). Embora a cantora expusesse sua fala num outro contexto, fica valendo esse trecho como uma profecia apocalíptica. Dei uma gargalhada com a fala do amigo – e até meu joelho magoado esqueceu a dor e também riu.

Como amante do baiano-soteropolitano, Gregório, o Boca do Inferno, que já pelos idos do século XVII, retado da vida, falava de coisas que só o diabo não duvidava, retrocedi a memória e me lembrei de algumas de suas sardônicas falas nos barrocos poemas:

 EPÍLOGOS
A Câmara não acode?... Não pode.
Não tem todo poder?... Não quer.
É que o governo a convence?... Não vence.
Quem haverá que tal pense
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.
(...)
De dous ff se compõe
Esta cidade a meu ver
Um furtar, outro foder (nos peitos alheios)

Gregório de Matos continua se insinuando na minha mente e me tomando inteira em SONETO:

A cada canto um grande conselheiro, 
que nos quer governar cabana, e vinha, 
não sabem governar sua cozinha, 
e podem governar o mundo inteiro.

Esse Boca do Inferno é insistente, mas preciso me valer dele para dizer o que sinto porque ele, quase 4 séculos passados, continua atualíssimo: À CIDADE DA BAHIA (que bem pode ser o BRASIL)

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Começo a encerrar esse texto porque se alguém estiver lendo, já deve estar de peito cheio e cansado. Todavia ainda tenho que lembrar a Rainha de Copas que mandava cortar as cabeças... Agora se corta o recurso financeiro (quem se lembra de Alice no País das Maravilhas?) para que possamos manter o direito a ter os dois peitos sadios. Não somos amazonas (quem se lembra das guerreiras lendárias que arrancavam os peitos para lutarem o bom combate?). As sauditas tinham a genitália circuncidada para não sentirem prazer sexual (ainda é assim, gente?).

Quando estava no meio deste texto inconfidente, minha sobrinha (Isabela K. M.), perguntou-me sobre o que eu estava escrevendo. Expliquei-lhe rapidamente o complexo assunto de forma a caber na sua cabecinha de apenas 10 anos. Ela me olhou meio que assombrada e indignada, cobrindo seus seios nascentes. Achei graça e perguntei-lhe se havia entendido e o que poderíamos fazer. Ouvi sua voz sábia e suave:
- com o peito que sobrar a gente peita!

Ó pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Neuzamaria Kerner

09/04/2014