Quem sou eu

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MASCULINO MUDA SORTE

Não era tristeza, não era dor, não era doença. Era um sentimento incômodo, uma coisa que vinha de dentro que o deixava desanimado e, por várias vezes, mais do que desânimo, entrava quase que num estado de prostração por dias a fio. Era aquela vontade de nada: nem de morrer nem de viver, nem de dormir nem de acordar, nem de comer nem...  Pensava quando tinha disposição ou quando o pensamento criava vontade própria e se instalava, sem pedir licença, na mente desgovernada. No que pensava mesmo? Talvez na dureza da vida. Vida. Tão boa para uns, tão ingrata ou indiferente para outros. Era ruindade o que a vida estava fazendo a ele. Ruindade da pior. E a vergonha de pedir ajuda aos vizinhos ou aos parentes? "É um vagabundo preguiçoso que dorme o dia todo e nem sai do barraco para procurar o que fazer". Era isso que ouvia pelas frestas das tábuas. "Não sou vagabundo, só estou desafortunado. Deve ser culpa da crise de fora e de dentro. É o sistema". Pensava.

Vida é feminino. Pobreza é feminino. Alegria é feminino. Mulher é feminino. Por isso nunca se dera bem com o feminino até para amar. Gostar do masculino não era defeito. Disso tinha consciência, mas naquela situação nem amigo arranjava para desabafos ou desafogos. Dormiu pensando em um que tivera, mas o abandonara assim que a necessidade - também feminino - bateu à porta. Esse abandono doeu mais do que a pobreza em que estava vivendo desde que se entendia por gente.

Sonhousonhousonhounoiteinteira. Cachorro, cavalo, boi, jacaré habitaram seus sonhos. Lutou com todos, ficou todo lanhado e saiu vencedor. Acordou até cansado de tanta batalha - pelo menos os bichos eram machos. De repente o dia e o pensamento - ambos masculinos - trouxeram uma ideia: tabela dos animais do jogo de bicho. Trocados contados. Força criada, embora os tremores de uma barriga vazia. Foi à lotérica. Apostou. Ousou. Acrescentou o 24 na mega mesmo sabendo que, se não desse certo, estaria zerado provavelmente para sempre amém.

Bingo!!!

Como por encanto aquela coisa inexplicável que lhe sufocava a alma e as vontades desapareceu. Meio zonzo com a mudança da sorte, sem saber ainda para onde ir, voltou ao barraco e lá estava aboletado no colchão de capim que lhe servira de cama, o carinha. Aquele mesmo que na hora do deus-me-acuda sumira. Olhou no fundo dos olhos do deitado e ia abrindo a boca para dizer qualquer coisa... Não valia a pena. Virou as costas para aquele passado e saiu pela rua para ser acolhido pelo novo Dia, bem masculino e com D maiúsculo.

Olhar pra trás... jamais! -  pronunciou do jeito francês.

p.s. texto escrito em casa... sem ter absolutamente nada pra fazer.
p.s.2. e viva Mariá Pinkusfeld!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O DOIS DE JULHO É MEU PAI.

... E não pode ser de outra forma porque a minha referência é puramente sentimental. O livro de História da Bahia me ensinou uma coisa sobre o Dois de Julho que, em verdade, foi apenas a ponte que conduziu a celebração baiana para os meus átrios cardíacos. Nesses espaços meu pai sacralizou o meu Dois de Julho.



Bom, quem me sabe, sabe também como aprendi (oficialmente) a ler: meu pai pegava um jornal e ía me mostrando as letras grandes... Aprendi o ABC (a bê cê dê é fê guê agá i ji lê mê nê ó pê quê rê si tê u vê xis zê) direto e salteado e depois solenemente soletrei o meu nome: Nê É U -neu- Z A -za- M A -ma- R i -ri- A. Quem quiser saber como é isso é só pesquisar e ouvir o Galope à Beira Mar Soletrado (Xangai e Ivanildo Vilanova).

Ler e escrever o meu nome. O que há mais de meu, a minha alma. Foi a Glória!!!

Extra oficialmente eu já havia aprendido a ler as histórias e mentiras escabrosas e engraçadíssimas e assombrantes de meu pai. Só pra me gabar mais, por ele e com ele, eu conhecia as histórias de Sherazade de trás pra frente e de frente pra trás. Isso sem falar que aos 11 anos eu já era íntima do poeta da antiga Pérsia, atual Irã, Omar Khayyam (1048-1131), um dos primeiros da fila dos meus amantes.

Então, no Dois de Julho, meu pai levava a mim e minhas irmãs - Marise e Marinalva - para a Lapinha. Logo cedo mainha providenciava o nosso banho, o pentear dos cabelos. Na pele rescendia o cheiro de seiva de alfazema da phebo. Lá íamos, quase Marias Quitérias marchando cataventos verdes e amarelos e bandeirinhas azulvermelhobranco de Brotas até a Lapinha. Nesse trajeto histórias mil iam sendo contadas pelo cara mais sábio do mundo. Éramos educadas  para a vida dos iguais e diversos nessa caminhada. Por isso somos limpinhas.

Repentinamente o carro do Caboclo e da Cabocla se descortinava em penas deslumbrantes diante de nossos olhos arrebatados de cores. As marchas e dobrados tocados pelas bandas do Corpo de Bombeiros  e da Polícia Militar bumbavam no peito baiano. Os alunos das escolas disputavam a melhor posição com suas fanfarras e com as meninas mais bonitas, fazendo evoluções com suas balizas, sendo o destaque principal, a aluna, Semírames, do Colégio Ypiranga. E a batalha sadia continuava entre os alunos do Colégio Estadual Góis Calmon (é pequeno mas é bom), do Severino Vieira (entra vivo e sai caveira), Anísio Melhor (entra burro e sai pior). Meu Deus, quem mais se lembra disso? Anna Amélia Marback, me ajude a lembrar!

Ele, meu pai, guardião das suas princesas, nos regia o hino. Era o Dois de Julho. Simbolicamente a minha independência. O Sol que brilha mais que o primeiro. Ouçam e vejam o video abaixo. (http://www.youtube.com/)

Inté!

p.s. O Brasil acaba de ganhar (há controvérsias). Mas ponto de vista é ponto de vista. Ponto. Pronto.