Quem sou eu

domingo, 5 de abril de 2015

LILITH



Lilith


Mostro-me para sair do exílio
onde me colocaram
e tiraram minha voz:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira no livro oficial.

Fui tida feiticeira
de energia visceral
que consumia a paz do meu companheiro.

Queixoso, dizia-se prisioneiro
dos meus afagos.
É certo que o envolvia, não nego!
mas o que ele não admitia
era estar sob o meu comando
ou ter-me como par.
Rebelei-me, afinal fui feita livre
e queria iguais direitos.

Vingou-se e cobriu-me de defeitos
diante do Pai.

Excluída
fui mandada para a treva do mar profundo.
De lá,
gerei desejos
e os enviei para queimar
o corpo de Adão.
Sua carne reclamava e desesperado gritava
por clemência.

O Criador cientista
rápido como a  urgência de um raio
trabalhou à luz de vela,
da criatura tirou uma costela

e fez o primeiro teste de clonagem.

Neuzamaria Kerner

O Livro-arbítrio das Evas
dentro e fora do jardim
EDITUS, 2014

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