Quem sou eu

domingo, 5 de abril de 2015

COISAS DA SOLIDÃO

  
I

As crias                                                                   
passarinharam:
eu ninho
nada-e-fico.

II

Nasci
cresci
casei
cumpri sina
pari
criei
solidei
não me vi
eu menina.

III

A solidão derramou
seu copo de água ardente
na alma inquieta
que vive em mim...

quebrou-se o copo
quedou-se o corpo
ardeu-me o fim!...


IV

Pássaro-flecha
me voou:
para trás
penas soltas
que aparo
escorregam entrededos
amarelos.

V

Desgarrado do rebanho
Um pensamento
Teimoso
Foi te ver.
Bateu com a cara na porta
Voltou rabo entrepernas
Dormiu no meu regaço
Sonhou vida boêmia
E embriagado de dor
O rebelde virou
Poema.

Neuzamaria Kerner

O Livro-Arbítrio das Evas
dentro e fora do jardim
EDITUS, 2014

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